sexta-feira, junho 30

Espaço Novo

Mudei de endereço. Agora dou meus pitacos aqui.
:)

quinta-feira, setembro 15

Estética da desconstrução

Gosto de velas. Sempre gostei. Estão tão próximas do calor e ao mesmo tempo combinam tanto com o frio. Essa proximidade do fogo acaba sempre modificando a forma original delas. A cera derrete. Pinga. Seca. E se transforma. Rende-se ao fogo para voltar com formas mais belas. Sofre um processo de desconstrução da estética original, muitas vezes reta e tosca, e se revela um objeto mutante. Engraçado. Mutante talvez não seja a palavra exata, mas é a que me vem à cabeça agora. Moldando-se em novas formas alguns objetos acabam por se tornar bem mais interessantes. Pois é. Aí é que tá. Isso acontece todo dia. Com todo tipo de objeto e gente. Gente moldando-se, sendo construída, desconstruída e reconstruída novamente. Mas o aspecto central não é esse, não são as pessoas em si, mas o processo. O que eu quero dizer é que, nem sempre o que acontece com a vela pode acontecer com gente de verdade, gente de carne e osso, com medos, angústias e prazeres à flor da pele. Essa sobreposição de fragmentos derretidos que fazem da vela algo tão sugestivo não acontece em humanos sempre. Acho até que quando se fala em pessoas dependemos de duas sortes: do tipo de fragmento/paixão que nos move e da probabilidade que tem essa paixão de fazer parte ou não da nossa vida. E que fique claro que quando falo paixão aqui não estou me referindo ao tipo de paixão de ordem carnal, não o aspecto físico. Refiro-me à paixão não material, aos nossos prazeres cotidianos. Àquilo que nos move na vida, aos fragmentos que nos formam. Sim, porque ninguém aqui é feito de uma parte só, ninguém aqui é o todo sem que não se possa desfazer em pequenas frações. São dessas frações que falo. Ou fragmentos. Ou paixões. Como quiser. Ou esses fragmentos todos simplesmente não se sobrepõem, não esperam o tempo de secar para se agrupar e se desprendem da realidade, porque são inúteis à vida, desprezíveis e indignos de qualquer atenção. E nesse caso se desprendem justamente para promover a construção de um ser mais intenso. Ou esses fragmentos não se desprendem. E quando isso não acontece, temos dois extremos. Depende do tipo de paixão que nos conduz. Podem, como na vela, ser incorporados e absorvidos para construir um ser belo em todos os sentidos. E esses são os pedaços mais doces. Ou podem se agrupar e, pelo contrário, não nos tornar pessoas melhores. Tornam-se hábitos ruins, que nos prendem à uma realidade totalmente infeliz. Sim. E são todos lados de uma mesma moeda.

quarta-feira, setembro 14

As Quatro Estações

Há um charme tão peculiar nesses dias chuvosos de inverno...

segunda-feira, setembro 12

Um tiro, um grito
Terra nua
Mão escorrida
Carne crua
- Morreu?
- Morreu.

Essas coisas que passam pela cabeça da gente nos momentos mais inesperados, e vindas não sei de onde...

"Mas eu ainda não sabia, naquela época, o quanto a terra pode ser gentil para com aqueles que só têm a ela, e quantas sepulturas podemos encontrar nela, para os vivos."

Palavras de Beckett, em Primeiro Amor

Flores para Isabela

Ela não era assim. Não tinha esse olhar escorregadio, tão vazio. Já demonstrou mais sutileza, já foi mais sublime e já respondeu mais perguntas do que essa indiferença...

Isabela?
Ãh?
Onde você perdeu a vida?
***
Quando Ana e Carlos deixaram o hospital com Isabela nos braços chovia. Fazia frio.

- Ela é linda

Ana adorava Chico Buarque. E também a chuva. Era como se cada pingo de água que atingisse o chão fosse um fragmento de sua vida. Todos eles juntos faziam Ana. Ana sorridente. Ana ruiva. Ana tranqüila. Ana olhos azuis.

- Sim. Parece-se com você. Tem o seu narizinho.

Carlos gostava de capucino. Era artista plástico e bem alto. Cabelos encaracolados e sobrancelhas expressivas.

- Mas os olhos castanhos são seus...

Isabela foi a convergência de sonhos e risadas. De duas vidas que se cuidavam. De noites apaixonadas e de movimentos planejados. Teve uma infância perfeita. Fotos, passeios ao zoológico, dentinhos que caem e crescem novamente, amigos e bonecas.

- Isabela, molhe somente as flores vermelhas!

Treze anos, bonecas só para enfeite, passeios ao shopping. Cabelos encaracolados e muito compridos. Adorava ficar observando as pessoas. Todas tinham algo que fugia a seus olhares. Muito interior, muito íntimo, algo que se esconde ao menor sinal de fragilidade.

- Todos são assim... Quanto de mim é estranho aos outros?

Quinze anos e dois meses, Isabela alta, saia xadrez, vento frio. Primeiro beijo. Filosofia e poesia. Perguntas sem resposta.

- Você é Isabela? São para você. Mandaram entregar.
- São de quem?
- Tem um envelope entre as rosas.

Dezesseis anos. Uma Isabela decidida. Poesia. Belle and Sebastian e Kundera. Porta do quarto fechada. Telefonemas na madrugada. Chuva fina. Palavras doces. Eu sei que vou te amar.

- O pai não vem jantar em casa outra vez?
- Não. Está trabalhando em uma encomenda. Disse que vai chegar tarde.

Ana sem sono. A televisão sempre faz o tempo passar mais rápido. Sofá confortável. Carlos ausente. Ontem cinco minutos; hoje dez e mais um jantar. Isabela em sono sereno. Respiração silenciosa. Ana abatida.

- Chegou tarde ontem
- ...
- Estava no atelier?
- Trabalho lá, não?
- Só perguntei...

Isabela quieta. Algo estranho no ar. Sublimado entre olhares que não se cruzam.

- Mais café, minha filha?
- Não... Já acabei

Flores murchas no vaso sobre a mesa. Ana distante. Isabela observadora. Carlos irritado. Manhã chuvosa. Ana de aniversário. Carlos esquecido. Isabela troca as flores do vaso, e compra um presente para Ana. Carlos não aparece.

- Pai, você não vem?

Noite escura. Isabela vai encontrar Carlos no atelier. Portas trancadas. Luz acesa. Vozes agitadas. Um olhar através da vidraça desvenda os desencontros.

- Carlos, você tem que falar com sua mulher
- Tenho que ter um tempo
- Mas tem que ser logo, eu não gosto dessa situação.
- Olha o que eu trouxe para você!
- Lindas...

Isabela volta para casa. Ana desfragmentada. Isabela vai até o jardim. Flores cortadas. Ana chora ao telefone. Isabela vai para seu quarto. Refúgio. Silêncio.

- Isabela, você costumava molhar o jardim. Ele está secando
- Eu sei, mãe...

domingo, setembro 4

Desordem

E eu que nunca entendi isso
Desalinho. Sensação plástica.
Mais um gole de vinho...
Mais uma dedilhada no teclado
Pensamentos flutuantes
Take me out tonight

because I want to see people and I
want to see lights
driving in your car
oh please don't drop me home
Sigo em frente com meu texto translúcido e sem forma
Até me cansar de palavras tolas
Mas sei me perder

e me achar sem paranóias
Fugacidade pura!